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domingo, 11 de julho de 2010
Klimt, wieso so pop? Lembro-me que Klimt foi o primeiro pintor que me causou real interesse, e até hoje ele persiste em ser meu pintor predileto. Ao olhar para os quadros dele, sinto-me como se estivesse olhando para dentro de mim mesmo, como se aquela imagem sempre tivesse existido em mim e que, se eu tivesse que pintar o mesmo tema que ele, pintaria exatamente da mesma forma. Sinto como se ele pensasse da mesma forma que eu penso. É impossível dizer que não me identifico com ele.
Eu achava isso um fato único, mas quando comecei a ler sobre Klimt, parece que ninguém consegue falar sobre esse pintor sem citar que ele é pop. Pop, pop, pop, é sempre isso que dizem dele. Desde o comentário do seu quadro numa revista da Bravo! das 100 pinturas essenciais, passando pelo documentário da BBC chegando até o livro da Taschen.
Imagine quantas vezes a cena de um beijo entre dois amantes deve ter sido representada no mundo das artes... Porém, quando se diz apenas ‘O Beijo’, está claro que você está falando de Gustav Klimt. Em se tratando de artes, monopolizar a palavra Beijo é um ato hercúleo. Sem contar que o quadro mais caro do mundo também é de sua autoria.
Tudo isso bastou para me convencer de que eu me sentia ‘identificado’ em sua obra, não por que ele expressa algo particularmente meu, mas sim algo particular do ser humano. E isso explicaria o fato dele ser tão popular.
Mas, o que na obra dele é tão humano, tão universal, de tão fácil assimilação? Pensei muito nesse assunto, e cheguei a conclusão que a sua arte fala de 3 tipos de beleza de fácil compreensão e vários pequenos fatores que levam o espectador a imaginar o tema do quadro espelhado em sua vida. As três belezas seriam:
- A beleza religiosa: Sim, apesar de Klimt ter pintado algumas personagens bíblicas ou mitológicas, como Judith, Adão e Eva, Leda e Dánae, é difícil de imaginar o Klimt como um pintor de arte religiosa, e nem é esse o meu intuito. Não acredito que, por exemplo, um cristão goste de sua obra por identificar nela algo de sua cristandade. Mas acredito que todas as pessoas, mesmo os ateus, têm algo que pode ser chamado de ‘sentimento religioso’. Mesmo quem tenha aversão a qualquer crença ou manifestação religiosa, creio que há algo em sua vida que, para ele, seja tão precioso a ponto de podermos comparar com o apreço que um crente tem pelo seu deus. Podemos dizer então que todos nós têmos algo que para nós é sagrado, divino. No caso de Klimt era a relação entre homem e mulher que toma aspecto sagrado. Relação entre os sexos, que para tantos é o símbolo de efemeridade, no quadro’ O Beijo’ fica claro o sentimento de eternidade presente. Os dois personagens retratados parecem estar vivendo e revivendo aquele momento, comumente tão curto, por toda eternidade, distanciados do restante do mundo por uma aura dourada que engloba ambos. O sentimento religioso em Klimt se manifesta, visualmente, em dois aspectos. Primeiro no excesso de ouro de sua fase dourada, que, alias, segundo os estudiosos de Klimt, é uma herança da arte religiosa bizantina. Isso comprova minha teoria, pois Klimt pegou a técnica que os bizantinos usavam para dar uma ‘aura sagradas’ e usou em seus quadros sobre a beleza da mulher. E a outra forma que o sentimento se manifesta é no escuro, nos fundos negros que parecem se estender ao infinito, um abismo sem fim. O mistério da localização do quadro parece dar um aspecto ‘barroco’ à sua obra, semelhante aos quadros do Caravaggio. Isso tudo nos convida a pensar, a sentir algo de misterioso e oculto, como os mistérios presentes nas religiões (os mistérios da cruz, como é a vida pós a morte, etc). É importante notar que, apesar dos fundos de suas obras alegóricas serem ‘vazios’, eles ainda existem. Não há nada alem de uma imensidão negra, mas será mesmo que essa imensidão é vazia, ou parece vazia somente até onde nossa visão alcança, de tão infinita que é a paisagem? Não há nada mais alem? É o mesmo sentimento que se tem ao estar em uma sala escura e não saber o que se tem lá. É o mesmo sentimento que se tem diante da morte: É mesmo tão vazia, ou somente até onde nossa visão alcança?
- A beleza da riqueza: Escrevi ‘riqueza’ pensando em seu sentido literal, inicialmente, mas depois percebi que essa beleza equivale para a riqueza em sentido figurativo. A beleza do ouro, como riqueza, tão presente em sua fase dourada, é um tipo de beleza que todos que vivem em um mundo ocidentalizado podem entender. Há aqueles que preferem a prata, mas mesmo assim, a relação entre ouro e beleza não está distante de ninguém. Não somente pelo simbolismo de riqueza que ele possui, mas também por outros simbolismos que ele adquiriu durante a história ocidental (como o sentido de algo eterno e sagrado na arte bizantina citada acima). A riqueza ainda se manifesta de outras formas alem do ouro. Ele foi membro da Secessão, um grupo que servia claramente os interesses da burguesia e aristocracia de sua época. Os retratos encomendados por essas pessoas estão cheias de marcas de sua posição social. Quanto à riqueza no sentido figurado, acho que não há muito que falar, se não o fato dos quadros dele serem cheios de detalhes e pormenores, nunca dando a impressão de simplicidade, chegando até ‘confundir’ alguns espectadores pelo excesso de detalhes. É uma arte rica em traços e em cores.
- A beleza feminina: Por último, porém, mas importante, uma beleza que se auto justifica. No livro da Taschen, de Gottfried Fliedl, há um capítulo chamado “O mundo com aparência feminina”. Não vejo forma melhor de definir sua obra. Em Klimt, o mundo inteiro toma a forma de uma mulher, o mundo inteiro toma a forma de uma beleza que todos admiram. Creio que mesmo uma mulher consiga reconhecer o erotismo expresso em seus quadros, e reconhecer que ali se manifesta a beleza. Algo totalmente humano, algo totalmente universal.
Essas, em minha opinião, são três belezas presentes na obra de Klimt que podem ser facilmente identificadas por qualquer um. E não são belezas que simplesmente podem ser entendidas por qualquer um, mas também são belezas cultuadas por quase todos em suas vidas privadas: O culto da beleza do sexo oposto, da beleza na riqueza e de sentir algo divino ou misterioso nas formas da vida.
Fliedl diz em seu livro que ele é o pintor mais popular do século XX. Porém, creio que muitas pessoas conheçam apenas ‘O Beijo’. Mesmo assim, creio que esse seja o quadro mais ‘cultuado’ de todos, mais admirado. Foi ele quem tornou Klimt ‘pop’. Pois creio que não é difícil alguém se identificar com os dois personagens do quadro. Todos nós já quisemos no entregar nos braços da pessoa amada eternamente, isolando-se das enfermidades da vida, misturando os corpos a ponto de nos confundir onde começa um e termina o outro como acontece no quadro. Há outros elementos no quadro, além das 3 belezas, que permitem esse quadro ser tão universal (elementos também presentes em quase todos os seus quadros alegóricos). Um deles é a remoção de qualquer traço de historismo. Na Escola de Artes Decorativas, Klimt aprendeu a pintar segundo o historismo, que é pintar a cena do quadro com personagem inseridos dentro de um momento histórico, com vestimentas e arquitetura historicamente corretas. Na Secessão, grupo posterior em que Klimt atuaria, o historismo é rejeitado. Agora os seus quadros não estão inseridos, nem em um momento histórico e muito menos em uma localidade real. Olhar para as suas alegorias, como o da Esperança ou da Vida e da Morte, é como olhar para o mundo platônico, o mundo das Idéias, um mundo onde o tempo, a região e a cultura não interferem na realidade. Olhar para sua ‘A Esperança’ é como olhar para a Verdadeira idéia de Esperança, que habita o mundo das idéias. Repare que mesmo os quadros que retratam personagens históricos como Judith e Dánae são desprovidos de qualquer traço regional e temporal. Isso, logicamente, permite que qualquer um se identifique com a cena tratada na tela, independente do ano em que se vive como independente de seu local de origem e cultura.
Repare também que mesmo outros artistas tendo usado algumas das belezas que citei, nenhum deles usou todos esses elementos juntos. Nas obras de Egon Schiele, conterrâneo de Gustav, vemos o uso da beleza do erotismo, talvez até usada mais ousadamente. Porém, não encontramos em Schiele a beleza da riqueza, muito pelo contrário, a obra de Schiele passa um forte sentimento de miséria e pobreza, e nem todos estão abertos para esse tipo elemento.
Para mim, tudo isso justifica a calorosa recepção que o pintor austríaco teve durante o começo da segunda metade do século XX, onde ouve uma pequena ‘renascença’ de Klimt, até os dias de hoje. Desde que esse ano começou, já devo ter reparado alguma ligação com o pintor mais de 5 vezes na TV, e olha que eu nem assisto TV! Eram quadros presentes em fundo de novelas, fundo de documentário, fundo de filme, e até a Angélica estava usando uma roupa claramente baseada em Klimt no Videoshow. Desculpem-me por um post tão grande, mas um pintor tão universal e onipresente merece todas essas 3 páginas de Word de palavras.
Imensamente grato aos que até aqui leram!
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Bibliografia: Fliedl, Gottfried, Klimt Taschen 25 Anniversary, Edição Original, Printed in China, Editora Tachen, 2006
Postado Por:
Black-Blood as
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